Lili poeta por Marli

Quem dera, todo poeta tivesse uma estrela na ponta do dedo ...

Textos


  Fotografia: Ana Flávia de Meira Bulek - Jardim Botânico-Curitiba

         
 Sou uma desocupada que ousa bulir na obra de Machado





Adorável Capitu



Oh! Flor do céu!, oh! flor cândida e pura!
Beijo-te as mãos em pleno encantamento
Que brilha do teu rosto de candura
Como as estrelas lá no firmamento.


Oh! Flor formosa, minha flor mais bela
Lânguida tez, espaço de ternura
Quero passar a noite em sentinela
Enquanto dormes, minha formosura!


Olhando o belo corpo, adormecido
Velo teu sono, inquieto e à procura
Por uma rima na memória falha.


E o recital bem antes pretendido
Farei no céu que hoje me assegura:
Perde-se a vida, ganha-se a batalha!
     

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Nota:
Exercício proposto no Fórum de Recanto das Letras em 2008, onde cada sonetista faria um soneto com o primeiro e o último verso, ambos descritos por Machado de Assis em sua obra Dom Casmurro.

             
 

Abaixo, um pequeno trecho do livro:

"Como e por que me saiu este verso da cabeça, não sei; saiu assim, estando eu na cama como uma exclamação solta, e, ao notar que tinha a medida de verso, pensei em compor com ele alguma coisa, um soneto. A insônia, musa de olhos arregalados, não me deixou dormir uma longa hora ou duas; as cócegas pediam-me unhas, e coçava-me com alma.

Tinha o alvoroço da mãe que sente o filho, e o primeiro filho. Ia ser poeta, ia competir com aquele monge da Bahia pouco antes revelado, e então na moda; eu, seminarista, diria em verso as minhas tristezas, como ele dissera as suas no claustro.

Decorei bem o verso, e repetia-o em voz baixa, aos lençóis; francamente achava-o bonito, e ainda agora não me parece mau: Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura! Quem era a flor? Capitu, naturalmente; mas podia ser a virtude, a poesia, a religião, qualquer outro conceito a que coubesse a metáfora da flor, e flor do céu.

Então adverti que os sonetos mais gabados eram os que concluíam com chave de ouro, isto é, um desses versos capitas no sentido e na forma. Pensei em forjar uma de tais chaves, considerando que o verso final, saindo cronologicamente dos treze anteriores, com dificuldade traria a perfeição louvada; imaginei que tais chaves eram fundidas antes da fechadura.

Assim foi que me determinei a compor o último verso do soneto, e, depois de muito suar, saiu este: Perde-se a vida, ganha-se a batalha! Sem vaidade, e falando como se fosse de outro, era um verso magnífico. Sonoro, não há dúvida.

E quem sabe se os vagalumes luzindo cá embaixo, não seriam para mim como rimas das estrelas, e esta viva metáfora não me daria os versos esquivos, com os seus consoantes e sentidos próprios?

Trabalhei em vão, busquei, catei, esperei, não vieram os versos. Pelo tempo adiante escrevi algumas páginas em prosa, e agora estou compondo esta narração, não achando maior dificuldade que escrever, bem ou mal.

Pois, senhores, nada me consola daquele soneto que não fiz. Mas, como eu creio que os sonetos existem feitos, como as odes e os dramas, e as demais obras de arte, por uma razão de ordem metafísica, dou esses dois versos ao primeiro desocupado que os quiser.

Ao domingo, ou se estiver chovendo, ou na roça, em qualquer ocasião de lazer, pode tentar ver se o soneto sai. Tudo é dar-lhe uma idéia e encher o centro que falta."

Machado de Assis - Fragmentos da obra Dom Casmurro.






Lili Maia
Enviado por Lili Maia em 03/06/2011
Alterado em 03/06/2011
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